Pretendo, despretensiosamente, divulgar aqui ideias, pensamentos, acontecimentos, imagens, músicas, vídeos e tudo aquilo que considere interessante, sem ferir susceptibilidades.

Falando de tudo e de nada... correndo o risco de falar demais para nada!


quarta-feira, 30 de outubro de 2013

sábado, 26 de outubro de 2013

De bancário a banqueiro…

Ou o exemplo oposto (dos muitos possíveis) ao que aqui deixei no último post.

Falemos então de Armando Vara, essa inextinguível figura do socratismo.
Da biografia de Vara pode extrair-se que nasceu em Lagarelhos, Vilar de Ossos, Vinhais, a 27 de Março de 1954.
Foi(!) administrador bancário e político. Estudou(?) Filosofia na Universidade Nova de Lisboa, tendo abandonado a universidade sem obter o diploma de licenciatura. Em 2004, antes de ter qualquer licenciatura, obteve (!!!) um diploma de Pós-Graduação em Gestão Empresarial no ISCTE. Mais tarde obteve o diploma de licenciatura no Curso de Relações Internacionais na agora defunta Universidade Independente, três dias antes da sua nomeação para a Administração da Caixa Geral de Depósitos.
Um mês e meio depois de ter abandonado a Caixa Geral de Depósitos para assumir a vice-presidência do Banco Comercial Português, foi promovido(!) no banco público ao escalão máximo de vencimento, o nível 18, o que terá reflexos para efeitos de reforma.
Actualmente recebe do estado (de todos nós… mesmo dos aposentados como eu) uma subvenção vitalícia mensal!!!

Pessoalmente, considero Armando Vara um dos casos paradigmáticos de maior sucesso do Governo de José Sócrates, que - pasme-se - conseguiu transformar um bancário local (Balcão da Caixa Geral de Depósitos de Mogadouro) num banqueiro de sucesso nacional.
Armando Vara que, no âmbito do processo Face Oculta, do qual é (ou foi) o principal arguido, garantiu que as únicas prendas que recebeu de Manuel Godinho foi um Pão-de-Ló e uma caixa de Robalos. Não consegue, no entanto - coitado - livrar-se da justiça que, noutro espaço de jurisdição, investiga de onde vieram os 800 mil euros da diferença entre os rendimentos auferidos e o dinheiro que entrou nas suas contas bancárias, em 2008 e 2009.
São 800 mil euros não declarados ao Estado que o podem levar a responder pelos crimes de fraude fiscal e branqueamento de capitais, na sequência de uma certidão já extraída do processo principal e cuja investigação foi entregue ao DIAP de Lisboa.

Entretanto, na imagem, Vara surge em pose contemplativa, quando ainda era dirigente do BCP.
No fundo, bem lá no fundo, Vara só está a olhar para mais um banco – a sua inquestionável especialidade. Neste caso, é o banco ou a cadeira em que se sentava... Bárbara Guimarães.

Armando, enfim, não passa de uma figura (um cromo) que ilustra bem o estilo dos políticos que têm desgovernado este País...

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

General Ramalho Eanes...

Ramalho Eanes, perante as dificuldades financeiras da Presidência da República, vendeu... sim, VENDEU A SUA PRÓPRIA CASA DE FÉRIAS, na Costa da Caparica, para pagar os custos inerentes à Presidência da República... ou seja, custos que deveriam ser suportados pelo Estado... Mais, não tendo, efectivamente a Presidência fundos suficientes, Ramalho Eanes mandou virar dois fatos (na altura ainda se usava recompor e remendar a roupa...), sendo que o alfaiate (do Norte) lhe ofereceu tecido para lhe fazer outros dois... Pois... Ramalho Eanes não usava Armani... Quando pretendia falar ou aconselhar-se com alguém, convidava-o não para jantar, mas para tomar chá no fim do jantar para evitar custos desnecessários ao Estado... Consta até que lhe terão oferecido acções da SLN-BPN, mas recusou...
Mas mais, muito mais...
Aquando do seu segundo mandato presidencial, Ramalho Eanes foi confrontado com a aprovação, pela Assembleia da República, de uma lei, especialmente criada com a intenção de lesar os seus legítimos interesses. De facto, a chamada lei ad hominem (a lei para aquele homem), foi criada para evitar que o General Ramalho Eanes viesse a acumular o seu salário de Presidente da República com "quaisquer pensões de reforma ou sobrevivência que auferiam do Estado", isto é, com a sua pensão de General 4 estrelas. Mas, Ramalho Eanes não obstante estar consciente da intenção dolosa desta lei soarista e das suas implicações na sua futura reforma, não hesitou em promulgá-la. E, quando concluiu o mandato presidencial, Eanes optou pela sua reforma enquanto Presidente, por serem estas as suas últimas funções, prescindindo da sua reforma enquanto General de 4 estrelas... Anos depois, após parecer do Provedor de Justiça, Nascimento Rodrigues, segundo o qual todos os Presidentes deviam ser tratados de igual forma, a referida lei foi revista por iniciativa de José Sócrates. E, não obstante, poder ser ressarcido dos retroactivos que lhe eram devidos e que se cifram a 1300 milhões de euros, Ramalho Eanes recusou recebê-los!
Ramalho Eanes é, portanto, um exemplo a seguir... E, por isso mesmo, lhe dou cinco das suas estrelas!
É o único que merece todos os privilégios por ter sido Presidente da Republica!

Bem haja General...


Nota 1
Este texto não é meu, mas deixo-o aqui mesmo assim porque explica, de certa forma, a razão pela qual aderi naquele tempo ao sonhador e idílico (neste País de políticos mentirosos e corruptos) Partido Renovador Democrático.

Nota 2: E... como ninguém é perfeito :-) ele é adepto do FCP... carago!

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Obrigado Troika!!!!????

Depois de uma noite mal passada a tentar resolver problemas de acessibilidade ao blogue por conteúdo inserido numa página de distribuição de programas maliciosos, nada melhor do que me distrair vendo e ouvindo este engraçado (mas muito bem feito) vídeo.

Nota: Ainda gostava de saber quem tentou instalar malwares no meu computador através deste blogue. Que mal é que eu fiz?? E a quem????

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Agnóstico praticante me confesso…

Como bem percebeu quem leu o último post sou de facto um agnóstico praticante.

Não acredito em nenhuma das religiões inventadas pelo homem e para o homem. Na verdade eu acho que a religião é uma das armas mais poderosas e perigosas.
Sem ter que recordar o que aconteceu no tempo da Inquisição, basta-me constactar o que vai acontecendo, ainda hoje, por esse Mundo fora, especialmente no mundo árabe e islamita, para comprovar que a Religião, seja ela qual for, quando levada ao extremo e de forma fundamentalista, é a arma de demolir mais perfeita que o homem criou. 
Esta arma destrói o corpo, o alento e a paz interior.

Eu acredito sobretudo nas pessoas.
Em algumas pessoas que por vezes se confundem com aqueles personagens mitológicos que tanto me fascinaram na minha infância e adolescência... as Musas. Essas pessoas transmitem-me uma boa onda e são capazes de extrair de mim aquilo que de bom também ainda vou tendo. Se fosse um artista de certeza que me dariam todo o talento e inspiração.
Essas pessoas nasceram com um talento especial para a criação e activação do talento e da sensibilidade de quem as rodeia, ao mesmo tempo que provocam uma enxurrada de ideias e de sentimentos com um ligeiro movimento de pálpebras, ou um sorriso insinuante...

Acredito também na natureza.
É reconfortante fazermos uma corridinha à beira mar, sentindo a brisa fresca no rosto, sob um sol brilhante e o azul do céu.
Ou no campo fazermos um qualquer percurso numa atitude descontraída, aproveitando a oportunidade para olharmos para as árvores com seus ramos e folhas oscilando ao vento num sussurro agradável e apreciarmos as flores e a sua beleza natural.

Em qualquer destes casos o corpo sente-se desafogado, rejuvenescido, e a mente fresca e enlevada…

sábado, 19 de outubro de 2013

Reumatismo...

- Padre, perdoe-me porque pequei (voz feminina)
- Diga-me filha - quais são os seus pecados?
- Padre, o demónio da tentação apoderou-se de mim, pobre pecadora.
- Como é isso filha?
- É que quando falo com um homem, tenho sensações no corpo que não sei descrever...
- Filha, apesar de padre, eu também sou um homem...
- Sim, padre, por isso vim confessar-me consigo.
- Bem filha, como são essas sensações?
- Não sei bem como explicá-las - neste momento meu corpo recusa-se a ficar de joelhos 
  e... necessito ficar mais à vontade.
- A sério??
- Sim, desejo relaxar - o melhor seria deitar-me...
- Filha, deitada como?
- De costas para o piso, até que passe a tensão...
- E que mais?
- É como um sofrimento que não encontro palavras.
- Continua minha filha.
- Talvez um pouco de calor me alivie...
- Calor?
- Calor padre, calor humano, que leve alívio ao meu padecer...
- E com que frequência é essa tentação?
- Permanente padre. Por exemplo, neste momento imagino as suas mãos na minha pele...
- Filha?!
- Sim padre, sinto necessidade de que alguém forte me estreite em seus braços e me dê o alívio de que necessito...
- Por exemplo, eu?
- Sim padre.
- Perdoe-me minha filha, mas preciso saber a sua idade...
- Setenta e quatro, padre.
- Filha, vá em paz que o seu problema é reumatismo...

Esta pequena historieta, assim "apimentada", ilustra um pouco daquilo que penso da "sagrada" confissão que se pratica na religião católica apostólica romana. 
De facto, nunca consegui compreender (por muito que me explicassem) como alguém consegue obter a redenção dos seus pecados, e consequente paz de alma, através do acto da confissão e da penitência  aplicada. Se conseguisse expressar a minha primeira (e única) experiência, ainda muito jovem e imaturo, teria de falar arrebatadamente na ansiedade que senti antes da confissão, da consternação durante o acto e do desalento carregado de medo que o seguiram.

Em contrapartida, conseguia obter de forma espontâneanatural, a tal paz interior ouvindo a chuva cair antes de adormecer, olhando simplesmente para o pôr-do-sol, apreciando o brilho da Lua e do Céu estrelado, ou vendo e ouvindo as ondas do mar a espraiarem-se na areia...

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

A dúvida


Nota:  
Encontrei esta dúvida perdida no baú onde guardo alguns dos meus pensamentos.
O despacho de aposentação de facto já chegou. Deixo, ainda assim, com algum atraso esta dúvida que é também uma suplica e que demonstra a minha vontade em sair rapidamente de um sistema com o qual já não me revejo. 

As "dúvidas" não matam mas moem...

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Os dois lobos...

"- Existe uma batalha que toda a gente tem que travar dentro de si. Essa batalha dentro de nós é entre dois lobos.
- Um é mau. É a cólera, a inveja, o ciúme, a amargura, o desgosto, o arrependimento, a cobiça, a arrogância, a lamentação, a culpa, o ressentimento, a inferioridade, a mentira, a vaidade, a soberba, o complexo de superioridade e o egoísmo.
- O outro é bom. É a alegria, a paz, o amor, a esperança, a serenidade, a humildade, a bondade, a benevolência, a empatia, a generosidade, a verdade, a compaixão e a confiança.

Quem assim falava era o velho Chefe Índio, sentado numa magnífica pele de urso, aspirando pausadamente o fumo do antigo cachimbo. A ouvi-lo extasiado estava um jovem  pele vermelha, seu neto, que aproveitou a pausa na narrativa para perguntar:
- Qual dos lobos vence?
O velho índio respondeu simplesmente:
- Aquele que alimentares."

Um velho amigo enviou-me por e-mail esta linda história.  
Normalmente seria reenviada para alguns dos meus amigos, sem prestar mais atenção. Mas, talvez por me encontrar imbuído de um certo espírito introspectivo, aproveitei para reflectir sobre as lutas que se desenrolam no meu interior e tentar identificar qual dos lobos eu alimento mais.
Convido quem me visitar neste blogue a fazer o mesmo.
Pela parte que me toca, confesso que a luta entre as minhas feras ainda não terminou porque a alimentação que lhes lanço tem sido abocanhada ora por um, ora por outro.

Mas o que eu quero que vença é, sem dúvida, o lobo bom. E há-de vencer. Tem que vencer. Disso estou seguro...

sábado, 5 de outubro de 2013

Conto: Neto de um emigrante em Paris! (XXXV e último)

Estava a trincar, alternadamente, uma maçã que segurava na mão esquerda e um pedaço de queijo Camenbert que tinha na mão direita quando uma carrinha de caixa fechada parou mesmo à sua frente. Saíram de lá um homem de bata branca e uma mulher de avental e lenço também brancos. Contornaram a carrinha cada um do seu lado, abriram em equipa a porta traseira que abria e fechava em forma de livro e retiraram do seu interior um cesto de pães enormes com a côdea tostada e estaladiça. Entraram pela porta principal da estação e reapareceram passados alguns minutos. Ele, calmamente, a sacudir as mãos da farinha. Ela esbaforida e a berrar pelo facto de mais uma vez ele ter vendido fiado.
Quando Zeferino lhes pediu boleia o homem, a quem a mulher chamava de Zequinha, aproveitou o pretexto para acabar com a discussão perguntando-lhe para onde queria viajar. - Está bem, levo-te até Moncorvo se não te importares de fazer duas paragens connosco, uma em Carviçais e outra no Larinho, enquanto vamos distribuir o resto do pão.
Zeferino acomodou-se então no único banco disponível do furgão entre sacos vazios, amarrotados e sujos de farinha. Assim, no seu canto, e à medida que a viagem ia decorrendo, pensava para si que qualquer semelhança entre aquela estrada esburacada, sem separadores centrais, que se serpenteava entre sobreiros, amendoeiras e pinheiros bravos e as modernas estradas de França era uma pura coincidência. Aqui parecia que não circulavam veículos fabricados neste século. A maioria eram camiões, carros velhos, “chaços” que se envolviam numa nuvem de fumo e pó e que produziam um barulho ensurdecedor. O mais curioso é que só agora no regresso a Portugal é que Zeferino se dava conta destes pormenores e os interiorizava desta maneira.
Também em si próprio notava que muita coisa havia mudado. De facto, logo que deu os primeiros passos em Barca d´Alva, sentiu que já não era o mesmo e que tinha regressado mais adulto, mais inspirado e virado para uma vida mais ampla e global… com uma visão mais pragmática e realista do mundo e, em consequência, melhor preparado para ultrapassar esse que seria sem dúvida um dos piores períodos que teve de percorrer e viver enquanto jovem ainda adolescente e, sobretudo, enquanto estudante.
Vinha também mais armado sob o ponto de vista psicológico e moral para superar essa “crise” da adolescência e alguns dos episódios que viveu nessa época e que sentiu de forma intensa, quase dramática. 
Sentiu sobretudo que esta também tinha sido uma viagem ao interior de si mesmo e, ao fazê-la, pode analisar todos os aspectos da sua vida com a mesma visão e viver consigo próprio com maior honestidade, sem receios, nem medos, nem preconceitos. Esta viagem ao interior do seu âmago assim dessa forma tão saudável permitiu-lhe enfim uma melhor aceitação de si mesmo e melhorar o seu auto conceito e auto estima.
Prometeu a si próprio que nunca mais iria ter um fracasso nos seus estudos. Iria estudar e aplicar-se como nunca o tinha feito até aí. Nunca mais iria reprovar em qualquer exame que tivesse de fazer como, infelizmente, já lhe tinha acontecido em duas situações anteriores. Assim, com esta auto confiança adquirida nunca mais iria baixar os braços e não deixaria que as dificuldades dessem cabo da sua alegria de viver. 
Habituar-se-ia a não gastar os seus dias com queixas e lamentações e (re)aprenderia a viver sem algumas das coisas a que achava que tinha direito e, entretanto, lhe foram retiradas, ganhando com isso a possibilidade de desfrutar de outras ainda com mais potencialidades. 
Aprenderia ainda a olhar para as pessoas, para os objectos, para os sítios, para os acontecimentos, com outros olhos, com outro sentido de descoberta.
Prometeu ainda a si próprio que, porventura, deste período negro sairia mais forte e com mais capacidade de conseguir ver o lado positivo da vida mesmo quando tudo parecesse cinzento e nublado.
Assim imbuído nestes pensamentos mal se deu conta da viagem e quando deu por si já estava em Moncorvo.
No centro desta bela localidade de Trás-os-Montes, mesmo em frente à Câmara Municipal, e com surpresa, viu um carro aí estacionado que conhecia muito bem, o Nissan 240Z, novinho em folha, do Dr. Silva, veterinário de Vila Flor e seu professor de Geografia no Colégio de Santa Luzia. – Viva! Já está! Já tenho boleia até casa. Agora é só esperar que o Dr. Silva regresse ao seu carro, pensou com regozijo.
O Dr. Silva chegou, deu-lhe de imediato boleia mas ralhou-lhe por ter faltado às aulas durante a primeira semana desse terceiro período. Só ficou mais calmo depois de Zeferino lhe ter contado que durante os primeiros três dias dessa semana tinha estado a cumprir o tal castigo aplicado pelo Padre Cassiano e - sobretudo - as circunstâncias injustas que o motivaram. Depois de ter perguntado se tinha sido mesmo assim que tudo se tinha passado acreditou e pareceu até ter ficado solidário com Zeferino. Fizeram os vinte e cinco quilómetros que separam Moncorvo de Vila Flor de forma muito agradável, bem dispostos e a rirem-se das peripécias ocorridas durante a viagem e que Zeferino foi relatando com prazer.

Alguém disse que a vida é uma viagem  a três estações: acção, experiência e recordação. 
Zeferino podia afirmar com toda a certeza de que esta tinha sido a viagem da sua vida em que não faltou nenhuma dessas estações…

FIM

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Conto: Neto de um emigrante em Paris! (XXXIV)

Já perto da fronteira de Barca D´Alva, mais precisamente em La Fuente de San Esteban, Zeferino acordou lentamente e, ainda estremunhado, olhou através da enorme janela para o exterior do comboio e pensou: quem disse que "quem olha para fora sonha e quem olha para dentro acordatinha toda a razão. 
Este pensamento veio-lhe à mente provavelmente por duas razões que no momento o impressionavam e agitavam os seus sentimentos mais profundos. 

Por um lado, devido à bela obra de engenharia que liga de caminho de ferro esta localidade espanhola a Portugal e que desfrutava e admirava à medida que ia olhando para fora
De facto, estes últimos 77 Km de linha permitiam-lhe apreciar cenários e paisagens verdadeiramente impressionantes por um traçado quase impossível de imaginar. Calculava que devia ter sido necessário um enorme engenho humano para construir 20 túneis e 13 pontes por entre graníticas e imponentes montanhas, num trabalho de dimensão faraónica que durou 12 anos, perfurando-se montanhas e unindo-se encostas, tudo para permitir vencer o isolamento secular das terras da província espanhola de Salamanca, permitindo desta forma que as mercadorias transportadas pudessem escoar os seus produtos, por mar, na cidade do Porto.

Por outro lado, porque quase no final desta inesquecível viagem, Zeferino ao olhar para dentro de si próprio, sentia-se confuso e com sentimentos ambivalentes. Ao mesmo tempo que sentia um certo mal estar (devido talvez a sentimentos de culpa) começou também a sentir saudades de Helena, como que acordando
Não sabia bem porquê mas à medida que mais se aproximava de Vila Flor mais saudades tinha. Já não a via há cerca de quinze dias mas parecia-lhe que a ausência durava há quinze anos. Na verdade, não fazia a mínima ideia se ainda continuariam a ser namorados depois de todas estas súbitas e apaixonantes experiências. Nestas duas semanas perdeu-lhe totalmente o rasto e nem sequer ocupou muito a sua mente e os seus pensamentos. Parecia-lhe que vivia num mundo lá longe, distante e inatingível.
O mais provável seria acabarem de vez com o relacionamento. De facto, ele vinha disposto a encarar a vida de um outro modo, mais sério e pragmático. 
Mas… naqueles momentos, sozinho no comboio, parecia que lhe ouvia a voz, que lhe sentia o cheiro e principalmente que a ouvia chamar pelo diminutivo do seu nome, que ela fazia de forma única, tão doce e com tanto carinho. A Lena, até agora, não tinha sido apenas a sua namorada. Tinha sido uma grande companheira, uma amiga, a sua melhor amiga. Quando andava mais triste era dela que ele se lembrava. 
Poderia parecer contraditório mas era exactamente pela consideração e amizade que lhe tinha que ele sentiu que tinha de ser totalmente sincero com ela e propor-lhe o fim... 
Teria, naturalmente, de ser politicamente correcto (se fosse capaz) e dizer-lhe que, se acabassem, deviam e podiam ficar amigos. Queria dizer-lhe também que a iria lembrar para sempre como tendo sido a sua primeira namorada e que aquilo que tinham vivido nessa fase tinha sido muito importante para ele e iria com certeza ter uma consequência forte para a vida inteira.
Teria de lhe contar todas as incidências desta viagem de ida e volta a Paris e, sobretudo, a forma como sentia o impacto de tudo o que viveu, de tal forma tão forte e intenso que lhe provocaram grandes alterações ao mesmo tempo que lhe haviam criado novos sentimentos que o levavam para o oposto daquilo que era a sua vida anterior. 

Zeferino agora sentia-me mais forte, não fisicamente mas mentalmente, agora não tinha de usar a agressividade para sobreviver no seu pequeno mundo lá no nordeste transmontano. 
Sentia, isso sim, que neste novo e grande mundo que descobrira, ele só tinha de usar a sua mente, e mais importante, o seu coração. Agora ele sentia alegria, sentia-se livre e com autonomia para viver sozinho. 

Agora ele sabia o que era a felicidade...
(continua...)