Pretendo, despretensiosamente, divulgar aqui ideias, pensamentos, acontecimentos, imagens, músicas, vídeos e tudo aquilo que considere interessante, sem ferir susceptibilidades.

Falando de tudo e de nada... correndo o risco de falar demais para nada!


quinta-feira, 28 de março de 2013

O resto do lixo...

Tentei não ver. Sou sincero, não queria dar audiência a um canal de televisão que promove o regresso deste refugiado em Paris. Resisti, resisti e resisti até perto do fim da entrevista. A minha companheira resumiu: A narrativa dele é repetir, vezes sem conta, a palavra “narrativa” e dizer que vem para se defender. Quanto ao resto… o resto é ele, o Sócrates. Aquele que conhecemos, não mudou nada, continua o mesmo aldrabão manipulador de sempre!

Nem me sentei no sofá mas ainda deu para o ouvir, na sua irritante voz, despejar a mesma argumentação de sempre a propósito do PEC IV. (...) Se não tivessem reprovado o PEC IV o País não estava assim, blá … blá … blá. Apeteceu-me gritar para os entrevistadores: perguntem lá a esse sujeito para que serviram todos os PEC(s) que lhe aprovaram antes do IV. Tenham juízo. Para que serve (e a quem) entrevistar um parasita destes? Para que dão a esse criminoso o tempo de antena em vez de entrevistarem alguém responsável pela justiça deste país, perguntando-lhe porque razão este psicopata não está a apodrecer atrás das grades por todos os crimes que cometeu enquanto primeiro ministro de Portugal?

Depois de desabafar (para mim) tudo isto, virei costas e... não acabei de ouvir o resto do lixo.

segunda-feira, 18 de março de 2013

quarta-feira, 13 de março de 2013

Desaparecido em divagações...

Olho a imensidão do mar enquanto um sol tímido mas firme vai caindo na linha do horizonte neste dia frio de inverno. 
Sorrio, desaparecido nas minhas divagações… 
Comparo-me a esse sol que teima em não desaparecer. E penso na ocaso da minha vida profissional... no que foi, no que é e no que queria que fosse... Lembro-me com alguma tristeza, saudade e nostalgia a altura em que tudo era como um verão escaldante, ardente, interminável... e como a minha vida profissional acompanhava tudo isso com sofreguidão e paixão...
Onde para tudo isso?....
Não sei. Qualquer coisa, algures pelo caminho perdeu-se... a idade não perdoa! Talvez seja isso, a idade…
No entanto, continuo a precisar de sentir algo de ardente, que me tente, que me entusiasme e que me dê aquele gosto pela vida. Sim, algo que vá dando e recebendo como se não houvesse amanhã... 
Enquanto estes pensamentos me percorrem a mente ao mesmo tempo que corro no local do costume, começo a sentir o suor a escorrer e, de repente, um sentimento de alívio e de prazer diz-me: mas tu já tens tudo isso! É só estares atento e desfrutares... caramba! Tens quase tudo com que sempre sonhaste e… já chegaste à Granja! Que bom…

segunda-feira, 11 de março de 2013

Conto: Neto de um emigrante em Paris! (XX)

Chamava-se Roland, era um agricultor e produtor ligado à produção de aves (galinhas, frangos, patos e gansos). Tinha 76 anos e era culto, educado e muito, mas mesmo muito, falador... 

-Então és um estudante português que vai à boleia para Portugal!!?? Começou ele logo que Zeferino se sentou no exíguo espaço que lhe sobrava no banco da frente da Renault 4. Deves ser completamente maluco, não!? Sabes que é muito perigoso viajar sozinho na tua idade, não sabes? Nunca sabemos quem nos dá boleia, pá... Por acaso comigo tens sorte, pá, pois eu sou um bom tipo, um tipo fixe, tás a ver? E ria-se… ria-se muito!

E continuou… posso dar-te boleia até Orléans pois tenho a minha quinta em Jargeau, que fica poucos quilómetros mais a Sul de Orléans. É aí que eu vivo e trabalho, fazendo criação de aves e cavalos de recreio. (…) Hoje vim a Paris, mais precisamente ao Ministério da Agricultura, para me inteirar dos pormenores técnicos necessários para a construção de uma nitreira lá na Quinta. Sabes o que é uma nitreira? Ah, bem parecia que não sabias... Pois uma nitreira é... bom... podes dizer que é um armazém onde podemos guardar os efluentes pecuários (estrumes e chorumes) no período que decorre entre a realização da limpeza dos pavilhões e a sua posterior aplicação nos solos… Mas não podemos construir uma "coisa" destas de qual maneira. Tem que obedecer a determinados requisitos técnicos: tem que ser impermeabilizada, possuir coberturas, devendo as escorrências geradas nesse armazém ser recolhidas e armazenadas para encaminhamento adequado, normalmente fossas sépticas com vala absorvente... tudo isto está regulamentado por lei e é esse técnico do Ministério da Agricultura que vai supervisionar tudo isso, estás a ver? (…) Tudo isto fica muito caro pois exige muita mão-de-obra para fazer a manutenção e inspecção periódica de todas as estruturas ligadas à recolha/drenagem de águas; para garantir as boas condições físicas do sistema e para assegurar a limpeza das instalações dos animais, etc,etc.

E assim foi a sua primeira boleia!
Durante os 120 km deste percurso da viagem, toda ela feita pela A10, M. Roland não se calou por um minuto. 
À entrada da cidade de Orléans ele deu duas alternativas a Zeferino: “ou deixo-te já aqui à saída da cidade e continuas a pedir boleia ou então vens comigo até Jargeau, vês a Quinta, almoças lá connosco e talvez eu te arranje uma boleia até à cidade de Tours pois o meu empregado Jean Paul vai lá esta tarde com um carregamento de ovos e de frangos”. 

Zeferino escolheu a segunda hipótese e lá foi até à Quinta de M. Roland que ficava situada na margem direita do Rio Loire. 
E não se arrependeu pois o local era lindíssimo! A exploração era constituída por diversas parcelas, perfazendo uma área total de cerca de 25 ha, dispondo, todas elas, de rega por aspersão. Em cada parcela praticava-se uma cultura diferente: desde o milho, à ervilhaca, ao trevo, à batata, ao nabo, à pastagem espontânea e à horta familiar. A Quinta formava um conjunto harmonioso e com uma paisagem toda ela “pintada” de verde que contrastava com o azul do céu, com o azul da água do rio e com o branco das casas e pavilhões que constituíam os quatro aviários da exploração.

Depois de terem visto toda a Quinta, que circundaram sem saírem do interior da Renault 4, foram ver as instalações, os aviários e uma enorme cozinha que servia de fábrica onde se produzia o célebre foie gras com o fígado dos patos e dos gansos.

Zeferino já tinha comido foie gras e sabia que tinha um sabor suave e levemente amanteigado mas nunca tinha entendido por que razão era considerada  uma das maiores iguarias da culinária francesa. Até porque o foie gras é o fígado inchado através de alimentação forçada. Ao ver a forma como esses animais eram super alimentados antes de serem mortos para lhes extraírem o fígado inchado e aumentado, Zeferino ficou profundamente horrorizado e agoniado. De facto, é muito cruel a forma de tratamento imposta a esses animais... eles diariamente são obrigados a comer, depois de já terem comido várias vezes... Sobretudo uns dias antes da matança e através de um funil muito comprido é empurrada, pelo pescoço abaixo, uma quantidade enorme de cereais misturados com gordura. O corpo destes pobres animais fica distorcido e o fígado fica seis a sete vezes maior do que o normal. 

Zeferino questionou M. Roland sobre este método agoniante que lhe respondeu: "quanto maior o fígado mais foie gras e quanto mais foie gras naturalmente mais lucro…"  
 (continua...)

sábado, 2 de março de 2013

Conto: Neto de um emigrante em Paris! (XIX)

De mochila às costas e com todos os sonhos possíveis a germinar na cabeça Zeferino saiu bem cedo de casa do seu avô.  Ainda era noite escura às cinco da manhã desse dia 19 de Abril de 1971 e já se encontrava sentado e encostado a um enorme carvalho francês plantado à beira da estrada, numa localidade dos arredores de Paris para onde um familiar próximo o havia transportado no seu Renault 8 Gordini de 1968. 

Estava inspirado e mentalmente abraçava a noite enquanto aguardava boleia ou, em alternativa, a chegada do sol. Sentia a brisa no rosto e "encaixava" a gratidão a esse familiar e a seu avô como única opção que lhe restava, contrariando a tendência que o afastava de prazeres tão simples como a de viver a madrugada enquanto a lua não era relegada para segundo plano. 

Estava mentalmente preparado para fincar os pés no alcatrão, esticar o dedo e partir... disposto a partilhar a viagem com quem lhe abrisse as portas de qualquer carro e lhe permitisse seguir estrada fora rumo ao seu destino. Aceitaria boleia de quem parasse o carro e estivesse disposto a partilhar a sua companhia.  

Inevitavelmente pensava nos últimos acontecimentos ocorridos na sua vida: “Que chatice de vida esta em que o amor se deita fora a si mesmo, ou se vai embora assim de repente sem avisar e sem termos tempo para nos prepararmos para essa eventualidade”. Continuando nesta introspecção apeteceu-lhe resumir os últimos dias da sua vida da seguinte forma: "duas pessoas solitárias, em viagem, inquietas, conhecem-se, apaixonam-se e parece que decidem amar-se numa linha recta em direcção a lugar nenhum que é o tempo... como um longo beijo que se dá antes do precipício para o desconhecido"

De repente, e regressando para a realidade, deu-se conta de que ninguém reparou (ou fez que não reparou) no seu dedo esticado. Levantou-se e continuou com o dedo polegar no ar. Não tomou nota do número de pessoas que simulou não o ver: “devo ter ar de fora-da-lei ou de drogado”, pensou. Mas não desistiu até que uma Renault 4L parou mesmo a seu lado e um senhor com um bigode grande e branco, tipo Asterix, espreitando pela janela lhe perguntou para onde queria ir. Depois de se inteirar das intenções de Zeferino e, pelos vistos, achando-lhe alguma piada, deu-lhe a primeira boleia dessa que seria uma longa e interessantíssima viagem...


 (continua...)